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Jornal Folha Cidade | 24 de maio de 2017.

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Microcefalia e Zika Vírus: um triste exemplo de mau emprego da Estatística

Microcefalia e Zika Vírus: um triste exemplo de mau emprego da Estatística
Rafael Martins - Editor Chefe

Quando a Globo deu início no Jornal Nacional à série de eventos do famigerado surto de microcefalia no nordeste, logo nas primeiras edições eu reconheci o estilo de Goebbels. Eram pequenas inserções diárias, preparando o telespectador para os novos lances, cada vez mais sinistros. Em poucos capítulos cumpriram o script e chegaram a esta obra prima da insanidade: o surto de microcefalia está relacionado com o vírus Zika, que é transmitido pelo nosso velho conhecido Aedes Aegypti.

O Ministério da Saúde, por coincidência o mesmo órgão que alardeou o problema e que também detectou a relação entre os dois eventos, sugere que as mulheres não engravidem e que se lambuzem de repelente. Foi pouco para que a ONU enxergasse uma oportunidade para seu projeto de eugenia e também aparecesse, supostamente sem ser chamada, para recomendar a liberação do aborto. Até gente que nem mais aparecia na TV resolveu criar coragem e dar as caras para “resolver” o problema.

Vamos aqui tentar analisar esta questão com o bom senso e a seriedade que o momento requer, o que, obviamente, não está sendo feito pelos órgãos do governo e menos ainda pela mídia.

Quando se investiga um fenômeno decorrente de causas desconhecidas é necessário cercar todas as possibilidades e somente admitir uma hipótese improvável após eliminadas todas as hipóteses prováveis. Por exemplo, quando se investiga a morte de uma pessoa, nunca se deve assumir de imediato uma hipótese de suicídio, pois isso impede que se comprove um assassinato. O suicídio somente deve ser cogitado depois de descartadas todas as hipóteses de homicídio. Um investigador idiota, que insista na tese do suicídio, sempre comprovará sua suspeita, mesmo que o cadáver tenha recebido dois tiros.

O que está acontecendo na investigação dos casos de microcefalia é um processo análogo a este. A ansiedade de justificar a tese que mais interessa está impedindo que se investigue hipóteses mais realistas.

O que motivou o relacionamento entre os casos de microcefalia e a incidência do vírus Zika é que ambos os fenômenos ocorreram simultaneamente no nordeste do país, mas isso é pouco para estabelecer uma correlação entre estes dois eventos. É natural que se procure entre as vítimas de microcefalia aquelas que tiveram ligação com o Zika.

Porém, a atenção está voltada para o número de casos em que se confirma o Zika, quando o correto seria que esta atenção estivesse voltada para os casos em que esta ligação NÃO se confirma. A ocorrência de bebês com microcefalia cujas mães tenham sido afetadas pelo vírus na gravidez não prova que estes dois fenômenos estejam correlacionados, pois estamos tomando amostras de uma população atingida por uma epidemia deste vírus, de forma que é esperado o surgimento de bebês com microcefalia, provenientes de mães afetadas pelo vírus, mesmo a causa sendo outra que não o Zika. Porém, um número significativo de bebês com microcefalia gerados por mães que não foram afetadas pelo vírus deixa evidente que não é o vírus que está provocando a deformidade. Infelizmente a investigação está equivocada. Os poucos casos de intersecção entre estes dois fenômenos não permite afirmar nada, a não ser que está havendo uma irresponsável precipitação em se tirar conclusões.

Alguns detalhes importantes e que poderiam contribuir para a elucidação do caso estão sendo ignorados. Em primeiro lugar, está sendo assumida a plena coexistência entre os dois fenômenos, o que é falso. A epidemia de Zika é generalizada e atinge o Brasil inteiro, além de países vizinhos.

Porém, o surto de microcefalia está restrito à região nordeste do país, mais especificamente ao Estado de Pernambuco, onde o número de casos registrados é claramente superior ao considerado normal. Ignorar esta regionalidade do problema é um total absurdo, mas isso está sendo feito.

O que eu tenho encontrado sobre microcefalia é que esta deformidade ocorre com uma frequência de 1 caso para cada 10.000 nascimentos. O último relatório, publicado em 12/02/16 no globo.com aponta 5.079 casos notificados com suspeita de microcefalia em todo o Brasil, sendo que deste total apenas 462 casos foram confirmados. E destes 462 casos, 442 ocorreram no nordeste (Pernambuco liderando com 167 casos, seguido dos estados da Bahia – 101, Rio Grande do Norte – 70, Paraíba – 54, Piauí – 29 e Alagoas – 21).

A disparidade entre os casos notificados com suspeita e os casos confirmados indica uma falta de critérios bem definidos para caracterizar a anomalia e também denuncia um estímulo do governo para que hajam notificações, o que acaba puxando as estatísticas para cima. Desprezando este fator, a comparação dos números permite identificar um fato bastante relevante: apenas 5 estados do nordeste detém mais de 95 % dos casos de microcefalia. Estes estados concentram uma população inferior a 15 % da população brasileira (30 milhões de habitantes). Os demais estados, que representam 85 % da população (cerca de 175 milhões de habitantes) apresentam apenas 20 casos confirmados de microcefalia. Usando alguns conceitos de estatística básica é fácil ver que não existe nenhum surto de microcefalia fora da região compreendida por estes 5 estados do nordeste.

Tomando os números encontrados na página do IBGE e assumindo uma taxa de natalidade homogênea de 14 nascimentos por 1.000 habitantes por ano em todo o território nacional, resulta em cerca de 420.000 nascimentos por ano para os 5 estados do nordeste contra 2.450.000 nascimentos para o restante do país. Antes de usar os números apresentados na reportagem acima mencionada é preciso fazer algumas normalizações, pois o período apontado na reportagem corresponde a 4 meses de monitoração (e não um ano). Além disso, existe uma diferença substancial (de mais de 10 vezes) entre o número de casos notificados com suspeita e o número de casos confirmados. Devemos então supor que o número real de casos esteja entre estes dois extremos. Para contornar esta dificuldade vamos assumir que o número real de casos seja igual a 4 vezes o número de casos confirmados (o que resulta em 5.184 e 240 respectivamente). Fazendo as contas, temos que os estados do nordeste apresentam um número de 123,4 casos de microcefalia por 10.000 nascimentos por ano, enquanto que o restante do país apresenta 0,98 casos por 10.000 nascimentos por ano. Ou seja, no restante do país, o número de casos está plenamente consistente com o que é previsto para uma população saudável, enquanto que no nordeste se observa uma majoração de 123 vezes o previsto.
Dessa forma, não é verdade que esteja havendo um surto de microcefalia no Brasil. Existe sim, um surto de microcefalia, mas que está restrito a estes 5 estados do nordeste. A epidemia de Zika, ao contrário, afeta todo o território brasileiro, assim como alguns países vizinhos, especialmente a Colômbia. E estas regiões, embora afetadas pelo vírus, apresentam uma incidência de microcefalia consistente com os padrões de normalidade.

Em razão do exposto, somente é permitido concluir que não é o vírus Zika que está provocando as deformidades registradas e sim algum outro fator que está sendo ignorado pelas investigações. Vale também registrar que o vírus Zika é conhecido desde 1947 e já provocou muitas epidemias pelo mundo. É muito estranho que nestes quase 70 anos nenhuma correlação tenha sido detectada entre o vírus e a microcefalia. Vou apresentar algumas hipóteses com o único propósito de apontar a incompetência dos órgãos governamentais, que parecem não enxergar outras possibilidades senão o Zika para explicar o problema.

Imagine que um profissional da saúde, contrariando todos os procedimentos recomendados, esteja aplicando alguma droga nas gestantes.

Uma única pessoa, por imperícia, fanatismo ou sei lá que tipo de loucura, talvez até de boa fé, poderia ter causado todo o surto de microcefalia que hoje afeta o nordeste. É difícil imaginar tal droga? Só para lembrar, a Talidomida causou um mal semelhante e era indicada exatamente para gestantes! Será possível que exista um profissional da saúde com tamanha imperícia? Quem duvida dessa possibilidade não tem o menor conhecimento da realidade em que vive o serviço público de nosso país.

Outras possibilidades bem mais razoáveis estão sendo apontadas por cientistas sérios, mas que recebem pouca atenção da mídia. São hipóteses bastante consistentes, que envolvem o uso de novos pesticidas, larvicidas ou tratamento inadequado da água, com produtos ainda não totalmente conhecidos. O bom senso recomenda que se investigue seriamente estas hipóteses, pois elas estão entre as possíveis causas do surto de microcefalia que está causando malformações nestes 5 estados do nordeste.

Por absoluta falta de método investigativo, incompetência no uso da estatística e desonestidade da mídia a serviço o governo brasileiro está fazendo crer que existe um surto generalizado de microcefalia no Brasil e colocando em pânico toda a população, não apenas a brasileira. Este surto, de fato existe, mas está confinado a 5 estados do nordeste. A irresponsabilidade de apontar erroneamente o vírus Zika deixa o verdadeiro agente impune, preserva a continuidade da tragédia, cria um pânico desnecessário e fornece energia para que lunáticos venham propor soluções as mais absurdas. Deixo para o leitor as inferências sobre quem está ganhando com tudo isso.

 

José Roberto Gimenez

 

 

José Roberto Gimenez
Pesquisador da Unesp 

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